Ser mulher e médica é habitar uma existência que o mundo insiste em simplificar, mas cuja verdadeira dimensão só quem a vive consegue compreender. Os olhares mais distraídos veem apenas o jaleco branco e a objetividade da profissão. Mas ali também habita uma mulher que atravessa madrugadas em plantões, e quando retorna para casa, recomeça outra jornada, a de ser mãe, companheira, filha e, tantas vezes, a organizadora das inúmeras tarefas que sustentam a vida cotidiana.
Nos dias de hoje, ser mulher e médica é desmontar dois mitos sobre os mesmos ombros, o da heroína e o da sacerdotisa, imunes às agruras do mundo. Longe da aura romântica que o Juramento de Hipócrates evoca, existe uma realidade de cansaço que não dorme e direitos que se esvanecem. Se ser mulher já é atravessar uma avenida de fogo, exercer a medicina hoje é fazer desta travessia um ato de luta, fé e perseverança.
Em Sergipe, muitas médicas convivem com uma realidade dura, e, por vezes, cruel. Salários atrasados, vínculos trabalhistas frágeis, contratos que nascem precários e envelhecem inseguros.
Nos corredores dos hospitais e nas maternidades do estado, a realidade se impõe nua e crua, sem maquiagem. Há médicas trabalhando sem a segurança de uma licença-maternidade, há profissionais sem direito a férias, a décimo terceiro salário, sem o reconhecimento mínimo de que também são trabalhadoras que sustentam vidas, dentro e fora do consultório.
Enquanto isso, governo e prefeituras aderem, sem pudor, ao modelo de privatização da saúde pública, entregando hospitais e unidades a Organizações Sociais que, não raramente, carregam no currículo investigações da polícia e do Ministério Público por suspeitas de corrupção.
Nesse cenário atroz, o trabalho médico passa a ser tratado como mercadoria descartável, algo que se contrata hoje e se dispensa amanhã. Concursos públicos tornam-se cada vez mais raros, como portas que se fecham lentamente diante de quem busca estabilidade, dignidade e respeito profissional.
Como se não bastasse, os assédios moral e sexual e a violência de gênero também passaram a habitar os ambientes de saúde como uma espécie de epidemia. Somados às cobranças desumanas e à ausência de condições adequadas de trabalho, esses abusos corroem, dia após dia, a dignidade profissional das médicas.
O Sindimed é testemunha dessa realidade acre. Chegam diariamente denúncias de precarização dos serviços, de escalas improvisadas, de jornadas extenuantes, de contratos frágeis. Histórias que revelam não apenas a sobrecarga de quem cuida, mas o descaso de um sistema que insiste em tratar a saúde pública como negócio.
Nesse ambiente de tensão constante, a saúde mental também se fragiliza, se esvai, como que arrastada pelas águas turvas de um rio caudaloso. Ansiedade, exaustão e tristeza tornam-se companheiras indesejadas de quem escolheu a profissão de cuidar. E é preciso uma dose imensa de coragem e de fé para que o peso dessas pressões não apague a chama da vocação médica.
Por isso, que este Dia não seja lembrado apenas pelas palavras gentis que o calendário costuma oferecer. Que seja também um momento de reflexão e de compromisso.
Porque ainda há muito a avançar para que a mulher médica exerça sua missão com aquilo que lhe é de direito: o respeito, dignidade e condições justas de trabalho.
Às médicas sergipanas, que todos os dias enfrentam o cansaço, a injustiça e o silêncio para continuar cuidando da vida, fica aqui o reconhecimento e a homenagem do Sindicato dos Médicos do Estado de Sergipe (Sindimed).