15 de janeiro de 2025, mais exatamente 20h, horário de Brasília.
Há promessas que envelhecem rápido. Mal atravessam a esquina do discurso oficial e já não resistem à prova mais simples da realidade: o extrato bancário. Na noite desta quinta-feira, 15 de janeiro, mais de mil médicos credenciados da rede estadual de saúde voltaram a enfrentar esse constrangimento silencioso, o gesto repetido de consultar a conta, refazer a verificação e encontrar, mais uma vez, o mesmo vazio onde deveria estar o pagamento do salário referente ao mês de novembro.
A situação se repete, com igual gravidade, entre os médicos que atuam na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes. Também ali, o salário de novembro segue em aberto, apesar de nova promessa, em vão, de quitação feita pelo governo do Estado para esta quinta-feira, dia 15. O discurso se perdeu ao vento.
A palavra empenhada não se materializou. O compromisso público dissolveu-se no ar, como tantos outros. Enquanto contas vencem, compromissos se acumulam e a angústia, seja econômica, emocional e humana, se instala no cotidiano de profissionais que seguem trabalhando sem a contrapartida mínima do respeito.
O problema não se encerra ali. Há relatos contundentes de atrasos também nos pagamentos dos médicos que atuam na UTIP do Hospital Amparo de Maria, em Estância, e na Maternidade Zacarias Júnior, em Lagarto. Nesses casos, profissionais seguem sem receber os meses de outubro, novembro e dezembro. A conta não fecha e não é por erro de cálculo, mas por descompromisso com quem sustenta o sistema.
Na primeira semana de janeiro, o Sindicato dos Médicos do Estado de Sergipe (Sindimed) recebeu uma avalanche de denúncias de médicos credenciados. Não eram números, eram pedidos de socorro. Médicos e médicas, pais, mães, chefes de família, cidadãos comuns aflitos com o atraso salarial.
No dia 9 de janeiro, a direção do Sindimed entrou em contato telefônico com o secretário de Estado da Saúde, Jardel Mitermayer, que prometeu o pagamento para o dia 13. Dias depois, a promessa foi revista: ficaria para o dia 15. O tempo passou. A aflição aumentou. A espera virou um exercício de desgaste psicológico. Isso também é violência. Violência silenciosa, cotidiana, institucional.
Diante desse cenário de sofrimento e desrespeito, causa perplexidade que o governo do Estado tenha escolhido atacar o mensageiro. Em vez de explicar os atrasos, tenta-se descredibilizar o Sindicato, acusando-o de espalhar informações falsas. Defender o trabalhador médico, no entanto, não é uma opção do Sindimed, é a sua razão de existir. Está na história e na própria natureza da entidade. E seguirá assim, independentemente de governo A, B ou C.
Atacar quem trabalha é uma triste tradição deste País. Muitos médicos, coagidos pelo medo de demissão, retaliação ou do fechamento de portas em suas carreiras, calam-se diante dos atrasos salariais. Procuram o sindicato justamente porque ali encontram um abrigo institucional, muitas vezes, o único.
A maioria vive sob contratos precários, seja por vínculos frágeis de credenciamento, seja por empresas terceirizadas. Uma prática nefasta que este governo estadual não apenas mantém, mas parece cultivar.
Foram esses mesmos médicos que, nos dias mais sombrios da pandemia de covid-19, enfrentaram o medo, arriscaram a própria vida para salvar outras, improvisaram onde faltava estrutura e humanidade onde sobrava desespero. Aplaudidos ontem como heróis, hoje parecem relegados ao esquecimento burocrático, diluídos em planilhas e contratos.
No lugar do vínculo humano, avançam empresas frias, encarregadas de gerir unidades de saúde como quem administra engrenagens, eficientes no papel, indiferentes à carne e ao cansaço do trabalhador. A terceirização paulatina da saúde pública vai, assim, substituindo o cuidado pelo cálculo, o compromisso pelo contrato, tratando médicos como peças intercambiáveis de uma máquina que, aos olhos do poder, precisa apenas funcionar, ainda que à custa da dignidade de quem a mantém em movimento.
Cabe, então, a pergunta que não quer calar: teria o governador Fábio Mitidieri, ao supostamente transformar emissoras de rádio em extensão de sua assessoria de comunicação, a coragem de olhar nos olhos desses profissionais – e são muitos – e afirmar, com honestidade, que não há médicos com salários atrasados?
Diante do olho no olho, as versões oficiais costumam se esvair. São poucos os que passam por esse teste ilesos.
Afinal, atrasar salário é aceitável? A insegurança trabalhista e financeira seria um mero detalhe?
Enquanto isso, não há registros de atrasos nos salários do governador, aliás, o mais alto do Brasil entre os mandatários do Executivo estadual, tampouco nos vencimentos de secretários e assessorias. A desigualdade do tratamento fala por si, mesmo quando ninguém diz nada.
Tratar a saúde pública e seus trabalhadores como descartáveis não é correto. Entregar a gestão da saúde à iniciativa privada, como vem ocorrendo em unidades estratégicas, a exemplo da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, do Hospital da Criança e do Hospital do Câncer, não pode ser naturalizado como caminho sem volta. Saúde não é mercadoria, e quem salva vidas não pode ser tratado como custo incômodo.
Atacar o sindicato é uma tentativa clara de desviar o foco do essencial: o não pagamento de quem trabalha. É desrespeito à categoria médica. É desrespeito ao Sistema Único de Saúde. É desrespeito à sociedade.
Como já ensinava Carlos Drummond de Andrade: “A luta não é breve, a vitória não é certa, mas a desistência é fracasso”. Nesse sentido, o Sindimed não se conforma. Insiste. Persiste. Porque por trás de cada médico há um cidadão. E por trás de cada plantão exaustivo há alguém que também sente medo, cansaço, angústia e indignação.
O sindicato, como tem de ser, seguirá firme na defesa da classe médica, do funcionalismo público, de abertura de vagas para concurso público. Não por teimosia, mas por princípio. Não por gosto do embate, mas por compromisso com a justiça. Porque quem dedica a vida a preservar a vida alheia não pode ser tratado como peça descartável de um sistema que só funciona quando convém.
E, como já lembrava o mestre Paulo Freire, com a lucidez de quem nunca se rendeu ao conformismo: “Mudar é difícil, mas é possível”, sobretudo quando a mudança começa pela restituição do respeito ao trabalhador, seja ele qual for.