Entrevista com o médico Douglas Rafanele: Depois de uma década Sergipe volta a realizar transplante de Rim

O procedimento foi em um Hospital Público, o Hospital Universitário

Data de publicação: 03/11/2022

Depois de uma década, no último dia 06 de outubro, Sergipe voltou a realizar transplantes de rim. O procedimento foi feito no Hospital Público, o Hospital Universitário (HU), através do Sistema Único de Saúde (SUS). A equipe que comandou o transplante foi composta por cinco pessoas; três médicos e dois enfermeiros. O Sindicato dos Médicos conversou com um dos médicos desta equipe, o nefrologista Douglas Rafanelle Moura de Santana Motta, formado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), turma de 2001. O doutor Douglas, além de atuar no HU, trabalha na Diaverum e Hospital São Lucas. Ele foi um dos médicos agraciados pelo Sindimed no dia 18 de outubro, com a Comenda Doutora Glória Tereza Barreto Lima Lopes.
Como foi percorrer esse longo caminho?
DR - Muito gratificante. O nefrologista é o médico que cuida diariamente do paciente portador de doença renal crônica, somos nós que convivemos com todas as dificuldades que enfrentam os doentes que fazem algum tratamento dialítico e que estão nas filas para transplante renal. Poder oferecer o melhor tratamento que existe para a doença é motivo de muita alegria.
Qual a sensação do Senhor ter participado deste processo (procedimento) que realizou os primeiros transplantes de rim em um hospital público. O senhor imaginava que isso estava próximo de acontecer e que seria em um hospital público?
DR - Primeiramente é importante lembrar que Sergipe já fez transplantes renais. O programa de transplante renal iniciou em 1985 e teve continuidade até 2012, porém funcionava num hospital privado, o Hospital São Lucas, que durante este período prestou um grande serviço à sociedade; a maioria dos doentes transplantados não tinha plano de saúde. Por uma série de motivos o programa foi suspenso e estávamos há 10 anos sem transplante renal em Sergipe. O fato de integrar a equipe que participou de todo o processo de estruturação até a realização dos primeiros transplantes em um hospital público no Estado é um grande orgulho. O HU é minha segunda casa, contando o tempo de aluno de Medicina e de nefrologista do hospital já se vão 21 anos.
Qual a maior dificuldade de realizar um transplante no Estado, é a carência de doadores, a burocracia ou a falta de recursos?
DR - Infelizmente nenhum lugar do mundo conseguiu zerar a fila para transplante renal, a doação sempre será um problema pois a demanda sempre é maior que a oferta de órgãos e, por isso, são fundamentais as campanhas de conscientização a respeito do ato de doar. Porém a burocracia e a falta de recursos ainda são problemas maiores no nosso estado.
Porque Sergipe deixou de realizar por uma década esse tipo de procedimento?
DR - O transplante renal é um procedimento de altíssima complexidade, que contempla uma fase pré-operatória, o transplante em si- a cirurgia- e uma fase pós-operatória. Neste processo participam diversos profissionais, de várias áreas diferentes. E apesar de ser uma atribuição do Estado, são necessários também recursos municipais e federais. Infelizmente levamos 10 anos para vencer dificuldades burocráticas e conseguir recursos para esta retomada.
Em média quanto custa a realização de um transplante na rede particular?
DR - Não tenho esses números atualizados, o custo na saúde aumentou vertiginosamente nestes 10 anos, mas é um procedimento caro. Como falei anteriormente, o transplante não é apenas a cirurgia, é preciso levar em consideração todo o pré-operatório, a cirurgia e, principalmente, o pós-operatório e todos os cuidados necessários e as complicações que podem acontecer, principalmente no primeiro ano. Além disso, é interessante colocar que todo hospital privado que opte por fazer transplante renal precisa estar habilitado para tal pelo Ministério da Saúde e para isso precisa passar por avaliações. Mas com relação a custo, acho que o mais importante é passar para toda a sociedade que, apesar do gasto elevado, o transplante é mais barato que o tratamento de diálise a partir do segundo ano. Se nós conseguirmos dar continuidade e ampliar nosso programa, o Estado vai economizar tirando uma parte dos pacientes da diálise e economizará também deixando de custear a transferência dos pacientes para outros estados via TFD (tratamento fora do domicílio).
O senhor acredita que este foi o pontapé para a realização de muitos?
DR - Preciso acreditar. Simplesmente não tenho o direito de imaginar que depois de tanto tempo dispensado em algo tão importante para tanta gente daremos um passo atrás.
Quem é transplantado volta a ter vida normal?
DR - O transplante renal não representa a cura para a doença renal crônica no seu estágio avançado, ele é a melhor opção de tratamento. O paciente continuará tendo várias obrigações como manter acompanhamento médico, usar medicamentos continuamente, fazer exames periodicamente, seguir dieta, dentre outras. Mas sem dúvida alguma, baseado em várias evidências científicas, é a opção que oferece maior sobrevida e melhor qualidade de vida.
No próximo ano há indícios de que serão feitos mais transplantes de rins e também de fígado no hospital público, o senhor acha que isso acontecerá mesmo?
DR - O Hospital de Cirurgia está se estruturando para realizar transplante renal e de fígado, o que seria muito bom para nosso estado, seria mais uma opção para os doentes. Como não trabalho lá, não sei a previsão de início. Com relação ao HU, a nossa programação é no próximo ano manter os transplantes renais com doador vivo e continuar evoluindo em termos de estrutura para iniciar os transplantes renais com doadores em morte encefálica.
Quais os requisitos para se fazer um transplante. Todo paciente é passivo de receber doação de outra pessoa?
DR - Infelizmente o transplante não é possível para todo paciente que está fazendo tratamento dialítico. Existem várias contraindicações, esta avaliação é iniciada pelos nefrologistas que cuidam do doente nas clínicas de diálise e pode ser complementada nos centros transplantadores. Doenças cardíacas, pulmonares, neoplasias malignas, algumas infecções crônicas, doenças psiquiátricas podem contraindicar um transplante de rim. No Brasil, o percentual de pacientes dialíticos ativos em listas de transplante está em torno de 20%. Precisamos melhorar esta realidade e o funcionamento de centros transplantadores em todos os estados do país é uma ação estratégica de primeira linha para isso.